ComCiência: Educação deveria usufruir de tecnologias para incentivar crítica

Trocar mensagens, músicas, comunicar-se via mensagens de texto, “blogar”, procurar assuntos de interesse na internet, assistir TV, tudo ao mesmo tempo. Esse é o perfil do que é chamado por alguns profissionais de “crianças multitarefa” que, cada vez mais cedo, tem contato com as novas tecnologias. Nesse cenário, defende Simone Bortoliero da Universidade Federal da Bahia (UFBA), torna-se fundamental “aproximar os meios de comunicação da escola. Ler a televisão e os meios de comunicação de uma forma crítica”.

Conhecida entre os especialistas como educomunicação – proposta do especialista em comunicação educativa Mário Kaplún – essa área tem como objetivo aproximar as novas gerações do pensamento crítico, ampliar as formas de expressão dos membros de uma comunidade e melhorar a capacidade de comunicar das ações educativas além de utilizar as tecnologias da informação e comunicação no contexto ensino e aprendizagem.

Bortoliero esteve no Núcleo de Informática Aplicada a Educação (Nied) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) ministrando um workshop para professoras do ensino fundamental da escola municipal de ensino fundamental Parque dos Pinheiros, em Hortolândia (SP). O evento pretende, entre outras coisas, apresentar os processos pelos quais são produzidos os produtos televisivos, por exemplo, para que se possa, assim, refletir sobre o que se vê. “É preciso diminuir o ritmo desenfreado que as mídias despejam informação sobre as crianças se queremos que elas desenvolvam a noção de crítica e reflexão. É nesse processo de desconstrução que ocorre o diálogo entre professores alunos e entre os próprios alunos”, diz a pesquisadora. O exercício da crítica na recepção, segundo ela, não é algo fácil de ser realizado, uma vez que o acesso à informação não garante que as pessoas sejam mais ativas ou participantes. “Criticidade não é algo que se pode transmitir ou transferir como um teorema matemático ou uma fórmula química; tem que ser exercitado”, enfatiza.

Entre maio e julho deste ano, a pesquisa de consumo infantil “Kids experts”, realizada pelo canal de TV Cartoon Network e pela agência de comunicação Fundamento Comunicação Empresarial, concluiu que a partir dos seis anos as crianças são introduzidas a aparelhos tecnológicos além da TV, e aos nove anos já utilizam computadores, internet e videogames, para, em seguida, se interarem com comunicadores (MSN, mensagens de textos, blogs) e celulares. Entre os 12 e 16 anos, os jovens também deixam a passividade e começam uma busca incessante por informação, além de dominarem totalmente os artefatos tecnológicos a que têm acesso. A pesquisa foi realizada com quase sete mil usuários do site.

Alunos e professores em comunicação

Simone Bortoliero liderou um projeto em 2001, chamado “Jovens repórteres cientistas”, na cidade de Peirópolis (MG), que visava à produção de vídeos de divulgação científica por jovens alunos da rede pública de ensino. Com o auxílio da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), em Uberaba (MG), as crianças saíam a campo para gerar reportagens e depois apresentar aos colegas. A experiência chegou a Salvador (BA) e à Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e, atualmente, compõe uma série de vídeos de curta duração intitulada “Um minuto para a ciência” e promove o diálogo entre os professores e alunos por meio da tecnologia. “Os professores foram pegos de surpresa com toda essa onda de tecnologia; agora é preciso capacitá-los”, lembra a pesquisadora.

Gracia Lopes de Lima, coordenadora de educomunicação dos projetos Cala Boca Já Morreu e Portal Gens concorda que exista uma distância que separa professores de alunos. Para ela, os professores têm que estar aptos a identificar as potencialidades das tecnologias que os alunos possuem (independente do nível socioeconômico), pois celulares com câmeras e mesmo velhas câmeras de VHS são tecnologias bastante acessíveis e podem ajudar nas produções dentro de sala de aula. Nos projetos que auxilia, Lima tenta enfatizar os processos de produção mais do que o objetivo didático do produto final. “Os participantes devem estar envolvidos com todas as etapas de produção, ao contrário do modelo de mercado hierarquizado. É isso que vai dar a noção de produção comunitária e visão global”, afirma. Ela também conta que a ênfase não deve ser na reprodução de modelos didáticos, mas na promoção da autoria. No entanto, Gracia Lima pondera que “as mudanças foram muito rápidas e a formação de professores ainda não deu conta de assimilar tantas mudanças em tão pouco tempo”.

É possível aproveitar a onda de consumo de tecnologia para enriquecer a educação. Lima acredita que esteja ocorrendo uma democratização desses meios e mídias, o que deve ser aproveitado. “As pessoas, não só as crianças, têm cada vez mais oportunidade de deixar de ser meras consumidoras para se tornarem produtoras de conteúdo”. Basta notar que, de acordo com a pesquisa “Kids Experts”, aproximadamente 25% das crianças entre idades de 7 a 15 anos já postaram vídeos no site YouTube e 20% já trocaram com amigos algum conteúdo de mídia via internet.

Fonte:Revista Eletrônica de Jornalismo Científico por Enio Rodrigo Barbosa.

Data: 
03/03/2009

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